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Geografia Solenes
Alice Lara | Henrique Detomi | Julio Lapagesse

Encaro o percurso por estas geografias solenes como o personagem Eudoro Acevedo no conto Utopia de um homem que está cansado, escrito por Jorge Luis Borges, que adentra uma casa baixa e retangular rodeada de arvores após uma longa caminhada por uma região inominada.

Quem o recebe é o personagem muito alto e também sem nome, que o convida para a refeição que está preparando enquanto falam sobre o tempo. Eudoro, confuso e atônito à natureza árida do lugar, tenta na fala encontrar hipóteses de onde está, de que tempo está. O outro parece acostumado a visitas espontânea e desata a falar sobre os séculos de encontros e o estado das coisas que pertencem a um futuro, um porvir, que naquela choupana já é dado como passado.

A fala do desconhecido parece abarcar tudo do mundo, como se os séculos fossem ponteiros em um relógio, e Eudoro tinha ali a ocasião oportuna de saber todos os saberes e ainda se ver as voltas com o desconhecido. Aliás, me identifico com Eudoro nesse ponto. Deparar-me com as obras dos artistas Alice, Henrique e Julio é como ter a possibilidade de me colocar diante dos saberes do tempo, da memória e do porvir e ainda me ater a todos os mistérios indissolutos que me arremetem.

Julio Lapagesse confronta o afeto e a memória, suas e do mundo, com seus desenhos e colagens. Utilizando-se de enciclopédias e catálogos antigos, tanto como matéria prima e como referencia, Julio aglutina narrativas não lineares e e muito menos fechadas que contam histórias de mundos possíveis. Existem em sua obra ao menos dois elementos que me trazem uma empatia instantânea às memórias desses mundos. O primeiro é o recorte, o fragmento de publicações de outrora. Sabemos que tudo o que é visível está dentro de um contexto que atravessa o instante em que encaramos a tal coisa, mas só conseguimos falar daquilo que está diante do nosso piscar de olhos, daquele recorte que não nos escapa na deriva que atravessa nossa caminhada. O segundo elemento é o vazio, o espaço onde esses vestígios habitam. O momento em que Lapagesse seleciona e aglutina esses fragmentos do livro de modo a reconstruir as narrativas desses elementos, ele tenta desvendar as lembranças do tempo como uma grande loteria, a embaralhar à sua propria sorte as cartas das mais diversas lembranças que flutuam por um mar de ausência, por um espaço não assentado pelo solo da História. E é nesse momento que as memórias de Julio se confundem com as do mundo, com as de Eudoro, com as da terra. A multiplicidade de sua matéria prima e a síntese de seu trabalho torna sua a história do outro.

Alice Lara, no entanto, lida com a eminência do presente, do agora. Sua pesquisa gira em torno do personagem animal, atuante em toda a sua produção, os trabalhos presentes na mostra enfatizam a inevitabilidade do encontro com o mesmo. Alice habita as paisagens de suas telas com animais que se esgueiram cautelosamente pelas matas ou ignoram o observador que os espreitam, percorrendo as campanas e planícies como se ali habitassem desde sempre. Diferente da obra de Lapagesse, que suspende o presente e o espaço que seus personagens permeiam, a artista constrói uma paisagem natural objetiva com pinceladas firmes, certeiras e aponta o instante no tempo que precede a violência derradeira do confronto do animal e seu algoz, da presença percebida de seu admirador. Transitando entre a fábula e retrato de um cotidiano familiar, Lara percorre a geografia que constrói de modo a investigar o que nos é subtraído nesse momento transformador do encontro, o que nos resta na retina depois de sermos consumido por esse derradeiro embate. Aqui o tempo é importante, o instante mais ainda. Toda a nossa percepção do que nos é familiar se torna refém e, por mais que se agarre com firmeza indissoluta à essa natureza tão delimitada que define o lugar que nos é conhecido, nada será o que foi após o golpe. 

Henrique Detomi anda sozinho pela paisagem. Suas pinturas á óleo denotam a uma caminhada por uma paisagem feita de memória, inventadas, planícies distantes do cerrado de suas lembranças. Mas me arrisco a dizer que talvez sejam memórias de um porvir. Futuro do pretérito. Detomi constrói horizontes naturais e delimitam neles silhuetas de monumentos vazios, de formas indefinidas que se localizam na égide dos seus limites. A maneira como esses elementos geométricos e rígidos se acomodam na natureza crua, pré histórica de suas telas levantam-se questões sobre sua origem, sobre suas ambiguidades. Ora, como é possível esses sulcos habitarem essa geografia de maneira tão inata se são legimamente antíteses um do outro? Ora, porque são o mesmo. Percebo que Henrique trás em seu trabalho a memória do futuro, o semblante do que há de vir. Os relevos geométricos que revelam a tela crua são formas de uma construção ainda não vista, ainda não levantada, mas ali permanecem como pressagio. Esse semblante dos empreendimentos de um tempo à frente, um relato das formas que olho algum viu no presente, me situa por fim na razão dessa reunião. 

Eudoro, após entender que verdade alguma sobre aquele lugar viria se não por citações de passado, presente ou futuro, aceita a obra dada de presente pelo personagem mui alto que o recebeu e segue caminho pelas vielas dessa cidade desconhecida até voltar ao seu escritório no ultimo parágrafo. Torno a me comparar ao escritor ao finalizar o seu relato falando do regalo recebido, a tela guardada em seu escritório que alguém pintará dentro de milhares de anos, com materiais hoje dispersos pelo planeta. Volto também ao recinto de meu texto após esse percurso com a certeza de que percorri as mesmas geografias, em imagens que contem a matéria do mundo feitas por mãos do futuro de um passado muito distante. 

David Almeida

 

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