Planos Aéreos – Individual de Alexandre Matos



matos

Escapes

A individual que Alexandre Matos ganha agora oscila entre dois tons. Por um lado, existe uma tentativa de sublimação, uma escapatória do real, uma utopia (ainda que predominantemente apenas visual) a buscar. Por outro, há o labor do grafite sobre a superfície do papel, a construir e enfileirar figuras inúmeras, o coser de pequenos aviões do mesmo material que, reunidos, criam uma massa branca de formas e planos triangulares. Cabe uma lembrança poética que ajuda a entender mais o projeto de Matos. Em Vidas ao Vento (2013), seu derradeiro título, Hayao Miyasaki, mestre japonês da animação, propicia uma discussão que sintetiza bastante o estilo que cruza filosofia, literatura e audiovisual tão próprio de seu cinema. Ele entrelaça as experiências aeronáuticas do italiano Giovanni Battista Caproni (1886-1957) e do japonês Jiro Horikoshi (1903-1982), ambos expoentes dessa indústria em seus países de origem, enfatizando o caráter quase libertário da criação de máquinas de voar, e ainda finca um melodrama dos mais pesados no enredo da produção, cujo título se inspira em poema de Paul Valéry (1871-1945). Ou seja, sonho e perda, esforço e inutilidade, liberdade e cerceamento, entre outros paradoxos, pontuam o cotidiano de todos nós. Voltando à mostra de Matos, os mesmos binômios parecem servir para investigar as variadas obras que formam essa exibição inicial. O humano vive entre esses polos, essas dualidades, e, por vezes, um dos lados acaba por ser determinante para, à frente, ser colocado por terra, e assim sucessivamente. O interessante das artes visuais, e, obviamente, do corpo de trabalhos de Matos, é quando esses universos se confundem, se contaminam e geram dificuldade para as leituras unidirecionais. O hibridismo de meios passeia por toda a exposição. Seria mais correto identificar a individual com uma predominância de desenho expandido, não apenas o bidimensional, do grafite traçado sobre a alvura do papel, que depois é emoldurado e pendurado, mas também o que invade a pintura, a colagem e o tridimensional. É importante determinar que Matos tem a primazia de sua habilidade no desenho e, mesmo em suportes outros, tal linguagem não se desfaz, pelo contrário, só se fortalece. O caráter serial dos pequenos módulos humanos que formatam a maioria de seus desenhos reforça a repetição e o controle da manualidade. O tom algo monocromático também enfatiza o rigor e a impessoalidade do fazer contemporâneo, mas em alguns momentos Matos flexibiliza tal discurso. É o caso das colagens, quando papéis artesanais recortados com muito cuidado dão organicidade às peças. A solidez da cerâmica e do bronze também provoca resultados outros às planaridades características de todo o conjunto, que tenta sempre primar por certo ar diáfano. Matos, assim, apresenta uma obra em evolução e que aparenta se aproximar de conflitos que podem ser fecundos em sua trajetória. Talvez uma abertura do desenho ao acidente – a alemã Rebecca Horn e a paulistana Carla Chaim, exemplos tão distintos, poderiam ser boas referências nesse caminho – e experimentos que se desdobrem no instalativo sejam dois vetores a serem desbravados pelo novo artista. No entanto, nesta individual, acredito que o dirigível, constituído de pequenos triângulos e frágeis linhas delineadoras, construídos sobre uma superfície cinzenta e em voo de destinação aberta, seja uma imagem-chave com força para que não esqueçamos tão facilmente da poética de Alexandre Matos.

Mario Gioia, abril de 2014

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Período da Exposição: Maio de 2014


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