Felicíssimo Olhar – Individual de Dario Felicissimo



Expo Dario

As cidades de Dario Felicissimo. Os habitantes vivem nos mesmos espaços, mesmas quadras, ruas, avenidas, becos, edifícios, frequentando os mesmos bares, empórios, farmácias, restaurantes, shoppings de informática, lojas, elevadores, e não se comunicam, não se entendem. Olham-se e não reconhecem uns aos outros.

Nas cidades de Dario seus habitantes vivem impregnados de fantasias, sonhos, medos, terrores, festas, flores, pássaros, bolas, sonhos, amebas, vazios, seres que nos parecem de outras galáxias. O que é ser, o que é parecer? Quem garante que não foram gerados embaixo de nossos pisos, tetos, atrás de nossas paredes, em nossas camas, no canto de esquinas escuras, mal afamadas.

Aqui há letras desconhecidas de alfabetos não identificados, palavras não criadas, formas que se contorcem e distorcem em água, aquários em que ratazanas convivem com peixes, ratazanas se tornam peixes em metamorfoses kafkianas, darianas.

O que vemos ou imaginamos ver nestes trabalhos? Cubículos fechados nos quais não se entra, dos quais não se sai. No céu todo tipo de seres, homens, animais, crianças, objetos, surfam em pranchas róseas.

Estranhos seres parecendo humanos. Ou humanos normalmente estranhos. Há ainda o que poderia ser a miniatura – ou será um projeto inacabado? – da torre de Babel, uma vez que nas metrópoles de hoje todos falam nos celulares, digitam, tuitam, ninguém se entende. Humanos perdidos. Mas os humanos estão perdidos desde que foram criados, solitários desde que nasceram. Condenados assim que nascem.

Uma laje paira solta, ameaçadora sobre um grupo em pé. A laje superior pode a qualquer momento desabar sobre as pessoas, mas ninguém se preocupa, cogita. Reflexões há muito se extinguiram.

Os isqueiros, de inocente uso, para acender um cigarro (mas o politicamente correto não eliminou o fumo?), uma vela de aniversário, uma boca de fogão para fazer comida, iluminar um espaço escuro, os isqueiros tornam-se mortais, catastróficos, ao acenderem coquetéis Molotov, ao atearem fogo aos coletivos, cujos passageiros morrem no seu interior ou se sufocam jogando-se pelas janelas estreitas. A violência do cotidiano tornou-se prosaica. O vandalismo acabou banalizando.

Não se deixe enganar pela plácida beleza destes quadros, pelos desenhos que lembram Escher, histórias em quadrinhos, Crumb, Mutarelli. São alertas, sirenes e alarmes. Solte-se. Entregue-se.

por Ignácio de Loyola Brandão

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Período da Exposição: 10 de Outubro a 14 de Novembro de 2014


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