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“Brasil Ainda Colônia” – Gabriel Pessagno

Sensibilidade e Perfeccionismo


A atividade profissional de Gabriel Pessagno é pouco usual. Aliada à sensibilidade natural, ele buscou desde sempre cultivar um perfeccionismo com exigência máxima. Meu primeiro contato com esse jovem artista foi surpreendente, revelando um segmento de arte que ainda me era desconhecido. A Alta Costura é habitualmente vista como terreno distante dos brasileiros, mesmo quando bem informados. Ao nos aproximamos de Gabriel, deparamo-nos com um mundo vibrante e criativo que atrai jovens talentos – alguns bastante reconhecidos, mas em sua grande maioria, profissionais discretos, de labor fundamental para as surpresas desse universo quase sempre inacessível.
Em sua formação, a partir de 2011, Pessagno cursou Artes Visuais na PUC-Campinas – indício do caminho que desejava seguir. Em 2015 decidiu-se por cursar o Haute Couture Embroidery professional training na Maison Lesage de Paris, estúdio para formação de gerações de profissionais gabaritados pelos últimos 160 anos. O exame de admissão na Maison é dificílimo e exige a reprodução perfeita de um bordado muito elaborado. A principal marca desse estúdio é, grosso modo, o bordado – cultivado em suas ricas e múltiplas variantes, desde as mais tradicionais e clássicas, até efeitos de ilusão de ótica, múltiplas texturas, iluminação, matizes de cores e filigranas que enriquecem os tecidos e as criações exibidas com orgulho nas passarelas da moda. Antes dessa exigente escola, em 2008 Pessagno cursou design de moda no Instituto Marangoni de Milão. Até hoje Gabriel tem grande atuação na área. Suas criações de bordados originais e contemporâneos surgem transfiguradas na moda vanguardista de alguns estilistas brasileiros, de ampla aceitação, sempre elogiados. Em especial, Gabriel tem trabalho em uníssono com a estilista Fernanda Yamamoto.
Para a maior compreensão do artista plástico que se revela nesta sua primeira exposição individual é fundamental conhecermos sua trajetória profissional e identificarmos sua real vocação. Aliado ao percurso trilhado, o artista Pessagno surpreende-nos com uma arguta percepção social e a preocupação realmente verdadeira com o mundo ao redor, frequentemente trágico e comovente.Utilizando-se desde figuras consagradas das obras de Debret e seu mundo com personagens reais, até seus trabalhos reveladores da observação de moradores de rua – marca indelével de um mundo próximo e carente de soluções – Gabriel cria suas figuras e afirma, com convicção, que “ao invés de pincéis e tintas, como seria de se esperar, eu bordo para mostrar o que me emociona”.Assim, o jovem artista visual segue cobrindo esses personagens com requinte, revelando, homens e mulheres que passariam despercebidos não fosse esse original tratamento plástico. Gabriel mostra-se um interlocutor das necessidades mais urgentes do dia a dia e dá sua contribuição para olharmos o que não se quer ver diante de todos nós. Veste com talento inusitado algo semelhante ao que um gênio como Joãozinho Trinta tornou deslumbrante: revelar com arte e beleza o que injusta e infelizmente nos acostumamos a desprezar. Que este continue sendo o promissor novo início de quem promete seguir um seguro e também brilhante caminho na Arte.

Antonio Carlos Suster Abdalla
Curador